Calote
recorde expõe 'bolha' em veículos
Por Felipe Marques | De
São Paulo
Flávio
Meneghetti, da Fenabrave: inadimplência só deve começar a diminuir a partir do
segundo semestre
Na
escalada do calote no crédito de veículos, a culpa sobra até para a avó. A
doença da matriarca da família - e o gasto salgado com o remédio - foi a
justificativa para um cliente da concessionária Amazon, em São Paulo, deixar de
pagar a prestação do carro. A dívida era distribuída no folgado prazo de
sessenta meses.
O caso da
avó doente está longe de ser a exceção no financiamento de veículos. São
histórias como essa que sustentam o patamar histórico em que se encontra a
inadimplência do financiamento para veículos da pessoa física. A taxa chegou a
5,5% em fevereiro (último dado divulgado), maior percentual registrado desde
que o Banco Central começou a medir o dado, em 2000.
A
inadimplência em alta, que desde janeiro de 2011 ganhou cerca de três pontos percentuais,
serviu de partida para mudar a forma como é concedido financiamento para carros
e motos pelos bancos de varejo. Entre as mudanças, prazos diminuíram, valor da
entrada subiu e instituições ficaram mais seletivas - com os maiores
participantes do segmento, Itaú e BV Financeira, reduzindo significativamente o
ritmo de atividade.
A alta do
calote expôs problemas na qualidade dos empréstimos, levando analistas de
crédito ouvidos pelo Valor a questionar se a subida da
inadimplência não é produto de uma bolha de crédito que se formou no mercado,
com a explosão dos empréstimos entre 2008 e 2010.
Altamente
dependente do mercado interno, a indústria automobilística já sentiu a queda de
10,9% nos volumes de produção no primeiro trimestre. O quadro começa a levar
executivos do setor a reavaliar as projeções que inicialmente indicavam
expansão de 4% a 5% nas vendas domésticas em 2012. "O mercado continuou
ruim em abril e deve seguir assim no semestre, o que indica que não teremos
crescimento este ano", diz o presidente da JAC Motors, Sérgio Habib.
No novo
cenário, os bancos estão cada vez mais seletivos. A dificuldade na obtenção de
crédito fez a venda a prazo cair de 85% do total no final de 2011 para 78%, no
primeiro trimestre deste ano, segundo a Federação Nacional de Veículos
Automotores (Fenabrave). "Em 2010, de cada dez fichas com pedidos de
financiamento, os bancos aprovavam sete. Hoje a média não passa de quatro ou
cinco", diz o novo presidente da entidade, Flávio Meneghetti. Para ele, o
nível de inadimplência só deverá diminuir a partir do segundo semestre,
"quando o orçamento das família endividadas deverá começar a recuperar o
fôlego".
No maior
participante da modalidade, o Itaú, o crédito para veículos estancou, fechando
2011 com R$ 60,1 bilhões de saldo, mesmo valor registrado um ano antes. Já a BV
Financeira, que passa por reformulação nas mãos do Banco do Brasil,
praticamente abandonou o mercado, elevando as taxas para novos empréstimos.
"Os
bancos, em especial o Itaú, não estão aprovando mais crédito para profissionais
liberais, a não ser em caso de possuírem histórico muito positivo com a
instituição", diz Marcelo Jallas, da concessionária Amazon, grupo com
lojas das marcas Fiat e Volkswagen, em São Paulo. "Por outro lado,
dependendo da ficha do cliente, o crédito sai em um minuto", completa
Marcos Leite, gerente da loja Volks.
A
seletividade também aparece na mudança dos prazos e tamanho da entrada. Na
tentativa de aquecer as vendas na faixa de clientes que conseguem aprovação de
crédito rapidamente, os bancos de montadoras começaram a oferecer planos com
taxas mais baixas. A estratégia se concentra nos veículos mais afetados por
lançamentos de marcas concorrentes. Há poucos dias, o Banco Volkswagen lançou o
financiamento do Crossfox em 18 meses, com 60% de entrada e sem taxa de juros.
Na
concessionária da Volkswagen Germânica, em Campinas, Evandro Garms conta que os
financiamentos de 60 meses sem entrada, que correspondiam a 40% do total feito
pela casa há cerca de um ano e meio, hoje ficam entre 5% e 10%.
"O
crédito para veículos estava provavelmente caminhando para uma bolha", diz
o economista Wermeson França, da LCA Consultores. Ele cita incentivos para
aquisição de veículos, como a redução do Imposto sobre Produtos
Industrializados (IPI) em 2008, que levaram à ampliação dos prazos de
financiamento.
Mas o
cenário do crédito mudou quando, em dezembro de 2010, o Banco Central anunciou
as chamadas medidas macroprudenciais, que aumentaram a exigência de capital dos
bancos para financiamentos de longo prazo. A economista Mariana Oliveira, da
Tendências Consultoria, diz que, enquanto a justificativa oficial do BC era
esfriar a demanda e controlar a inflação, em sua opinião houve uma tentativa de
encurtar os prazos das operações de crédito "que cresciam em ritmo
rápido".
Para ela,
as medidas também criaram empréstimos de menor prazo e com juros maiores, que
contribuíram para o avanço da inadimplência. Mesmo porque as medidas do BC
coincidiram com aumento na competição no mercado de automóveis, com a chegada
de modelos chineses.
A
suspensão parcial das medidas do BC, em dezembro de 2011, o aumento do salário
mínimo e o mercado de trabalho aquecido devem contribuir para a redução gradual
da inadimplência ao longo de 2012. Porém, Oliveira acredita que a taxa pode encerrar
o ano acima da média histórica.
"Acreditamos
que a taxa vai se estabilizar e depois cair. A dificuldade é dizer quando, já
que 2011 foi um ano atípico, o que nos deixou sem base histórica para a
previsão", diz Décio Carbonari, presidente da Associação Nacional das
Empresas Financeiras das Montadoras (Anef).
Apesar da
revisão das medidas macroprudenciais, as regras de Basileia 3, que exigirão
mais capital dos bancos, podem manter os grandes bancos de varejo longe dos
financiamentos de veículos. É o que acredita Celso Grisi, professor da
Faculdade de Economia e Administração da USP. "Os bancos de montadoras
terão que suportar esse mercado", diz. Para ele, o segmento viveu, sim,
uma bolha antes de 2011.
Mas alguns
bancos de varejo também começam a ensaiar papel mais ativo no segmento, caso do
Santander e do PanAmericano. Mesmo assim, o Santander escreveu em seu relatório
anual que fez "correções de rota" no crédito de veículos com
"políticas mais conservadoras e medidas de segurança na gestão de crédito".
Procurados, Itaú, Banco do Brasil, Banco Votorantim, Bradesco, Santander e
PanAmericano não comentaram a política de crédito para veículos. (Colaborou
Marli Olmos)
http://www.valor.com.br/financas/2616724/calote-recorde-expoe-bolha-em-veiculos